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Leituras dramatizadas celebram legado de Paulo Cesar Peréio no Sesc Tijuca
Ciclo dirigido por João Velho revisita textos marcantes da carreira do ator, diretor e produtor; e integra exposição dedicada ao artista
Um ciclo de leituras dramatizadas tem apresentado ao público diferentes facetas da obra de Paulo César Peréio, no Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro. Dirigido por João Velho, o projeto Leituras Afetivas, que começou em novembro, traz textos que marcaram a trajetória do ator, diretor e produtor, e segue com novas apresentações entre dezembro e fevereiro. As leituras fazem parte da exposição “Peréio – Semana que vem eu me organizo”, dedicada à produção visual e ao percurso artístico do homenageado.
Segundo João Velho, a proposta é revisitar obras que, de diferentes maneiras, cruzaram a carreira do artista. A seleção reúne quatro textos ligados diretamente à atuação, direção ou produção de Peréio. “Reunimos peças que fizeram parte da vida do meu pai e que ajudam a contar sua relação com o teatro. São trabalhos que revelam escolhas e afetos importantes na construção da sua trajetória”, afirma o diretor. A mostra foi desenvolvida com seus irmãos, Thomaz e Lara Velho.
PROGRAMAÇÃO - A programação segue no dia 17 de dezembro, com a leitura de “Eu Te Amo”, filme de Arnaldo Jabor adaptado pelo próprio cineasta para o teatro. O personagem interpretado originalmente por Peréio será vivido por Sérgio Guizé, e Gianne Albertoni assume o papel originalmente interpretado por Sônia Braga. Em 14 de janeiro, o público acompanha “Anti-Nelson Rodrigues”, texto inédito escrito por Nelson Rodrigues a pedido de Neila Tavares durante um período de afastamento do dramaturgo dos palcos.
A montagem conta com artistas que têm relação direta com os intérpretes originais: Bel Wilker (filha de José Wilker), Daniel Dantas (filho de Nelson Dantas), Nina Velho (sobrinha de Peréio) e Maya Tyszler (neta de Peréio e Neila Tavares). O ator Carlos Gregório, único remanescente do elenco original, participa novamente. João Velho interpreta o papel que pertenceu ao pai.
O ciclo se encerra em 11 de fevereiro, com “O Analista de Bagé”, texto de Luiz Fernando Veríssimo adaptado para o teatro por Peréio, que percorreu o Sul do país com a montagem. Nessa leitura, João assume o papel principal ao lado de Stella Miranda, integrante da versão original, e de seu irmão Thomaz, que interpreta os pacientes.
Para João, o projeto é uma forma de revelar ao público a amplitude da obra do artista. “Meu pai representou muita coisa, e nós carregamos parte disso. Reunir esse material e apresentá-lo às pessoas é uma forma de pertencimento. O Peréio não é só nosso, é do Brasil”, afirma o diretor, destacando que a exposição e as leituras reforçam a presença do ator na memória cultural do país.

Gianne Albertoni participará de homenagem a Paulo Cesar Pereio no SESC Tijuca (Crédito: Thaís Cunha)
Serviço
Leituras Afetivas – Exposição “Peréio – Semana que vem eu me organizo”
Local: Sesc Tijuca, Rio de Janeiro
Datas: 17 de dezembro, 14 de janeiro e 11 de fevereiro
Horário: A partir das 18h
Classificação livre
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Gênero pode participar da configuração das emoções humanas
Psicóloga Valeska Zanello investiga em novo livro como homens e mulheres aprendem a sentir de formas diferentes em culturas sexistas
Até que ponto nossas emoções são naturais e quanto delas é aprendido? Essa reflexão guia o novo livro da psicóloga Valeska Zanello, “Scripts Culturais, Gênero e Emoções”, o qual será composto de dois volumes. O Volume 1 (Problematizando ‘Gênero’)” foi lançado em novembro pela Editora Appris. Autora dos best-sellers “Saúde mental, Gênero e Dispositivos” e “A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações”, Valeska aprofunda em sua nova obra a discussão sobre como o gênero atravessa a construção das emoções, afetando diretamente nossa forma de sentir, reagir e nos relacionar.

O primeiro volume da série que retrata gêneros e emoções: “Scripts Culturais, Gênero e Emoções” – (Crédito: Divulgação/Valeska Zanello)
Fruto de cinco anos de pesquisa, o livro parte da premissa de que as emoções também são construídas socialmente e atravessadas pelo gênero. Valeska analisa como homens e mulheres aprendem a sentir de maneiras distintas em culturas sexistas. “Um bom exemplo é a relação com o ódio, emoção que infelizmente é profundamente amputada na socialização das mulheres, em culturas ocidentais ou ocidentalizadas. Podemos ver isso nas situações de violência doméstica, nas quais muitas mulheres, apesar de todos os danos sofridos, se apiedam do agressor e preferem ter sua vida prejudicada a prejudicá-los”, afirma Valeska, professora de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).
Com abordagem conceitual, epistemológica e histórica, o primeiro volume revisita o termo “gênero” e seus múltiplos significados, oferecendo ao leitor ferramentas teóricas para compreender como o sexismo estrutura tanto as relações sociais quanto os modos de subjetivação. Ao revisitar o conceito, Valeska reflete também sobre os impasses dos debates contemporâneos. “Debates que me pareceram mais monólogos do que verdadeiros diálogos, pois partiam de premissas não explicitadas ou problematizadas, como por exemplo, do que se está falando quando se refere à ‘Gênero’. Parto aqui da ideia de Wittgenstein, para quem o sentido de uma palavra é seu uso; ou seja, a mesma palavra pode ter sentidos muito diferentes. Se isso não fica evidenciado desde o início de um debate, facilmente o que parece um ‘embate’ seria, na verdade, monólogos sem pontes ou trocas”, explica a autora, que é doutora em Psicologia pela UnB.
O livro também propõe um diálogo entre gênero e saúde mental, articulando o impacto das desigualdades estruturais sobre a formação emocional dos sujeitos. Para Valeska, compreender o sexismo é essencial para entender o próprio funcionamento do capitalismo contemporâneo. “Sexismo e racismo são forças estruturantes e operantes no modo de funcionamento do capitalismo. O patriarcado capitalista produz, configura e interpela determinadas emoções. As emoções se inscrevem no corpo próprio, mas são mediadas pela cultura. O livro (no todo) é sobre essas emoções e como gênero participa na configuração das emoções.” A autora destaca que as divergências em torno da palavra “gênero” não se limitam a diferenças de uso entre movimentos sociais, mas expressam experiências subjetivas distintas. “Talvez precisemos criar novos conceitos para dar conta dessa complexidade, sem deixar de fora ou apagar nenhum grupo”, afirma.
Formada também em Filosofia, Valeska combina o olhar clínico e o pensamento teórico para propor uma reflexão que atravessa campos distintos. “Foi preciso retornar à ‘casa’, na filosofia, e trabalhar histórica e epistemologicamente os conceitos relacionados ao feminismo, seus sentidos e ligação a diferentes movimentos sociais (com várias transformações). De certa forma, todo meu percurso na filosofia e em meu doutorado (cujo tema foram as funções da metáfora na clínica em psicologia; escrita em uma perspectiva entre a psicanálise e a filosofia da linguagem) foram essenciais”, conclui.
Sobre a autora: Valeska Zanello é graduada em Filosofia e em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), onde também concluiu o doutorado em Psicologia, com período de pesquisas na Université Catholique de Louvain (Bélgica). É professora do departamento de Psicologia Clínica da UnB, onde também orienta o mestrado e o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em saúde mental, gênero, psicanálise e filosofia da linguagem. Coordena o grupo de pesquisa “Saúde Mental e Gênero”, com foco em mulheres e interseccionalidade com raça e etnia.






