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Quando a escrita se torna sobrevivência

Rodrigo Maran posa com seu livro "Caderno do Viajante: Mendigo de Paris" (Créditos: Divulgação)

Em “Caderno do Viajante: Mendigo de Paris”, Rodrigo H. Maran transforma a experiência com a dependência química em diário poético

O que pode nascer de um diário escrito em um dos períodos mais conturbados da vida de um autor? “Caderno do Viajante: Mendigo de Paris”, do escritor Rodrigo H. Maran, sob o pseudônimo Fabiano Bartolomeu, reúne poemas e textos confessionais escritos durante a dependência química. Publicado pelo selo Artêra, da Editora Appris, o livro se organiza como um diário íntimo e será lançado no dia 19 de fevereiro, às 18h, na Livraria da Vila do Park Shopping Barigui, em Curitiba.

Estruturado como um caderno de registros em tempo real, o livro acompanha o autor em sua travessia pessoal pelo vício, pelas crises psíquicas e pelas tentativas de reorganizar a vida. Ao longo das páginas, surgem relatos de recaídas, consultas terapêuticas, reflexões filosóficas e momentos cotidianos com os filhos, Davi e Benjamin, que atravessam a narrativa como presença constante. A escrita aparece como necessidade vital, sem filtros ou convenções literárias, transitando entre poesia, prosa e confissão.

Embora não se apresente como um relato de superação, o livro dialoga diretamente com o debate contemporâneo sobre saúde mental. Hoje, sóbrio e frequentador de reuniões de Alcoólicos Anônimos, o autor reconhece a dependência como uma doença progressiva e fatal. “Minha luta mais tensa é com a sobriedade”, afirma. “Mas sóbrio, minha vida anda pra frente.” Ao final, o livro se afirma como testemunho literário sobre fragilidade humana, permanência e a escrita como forma de continuar.

Um dos eixos da obra é a dependência química entendida como uma experiência que se instala no corpo, na mente e nas relações interpessoais. “A dependência química é uma pandemia”, descreve o autor. “Ela destrói a vida das pessoas e dos familiares. As clínicas estão cheias, muita gente morre por overdose ou é morta pela violência que atravessa esse contexto.” Ao trazer sua vivência para o campo literário, Maran desloca o olhar moralizante sobre o vício e propõe uma leitura mais humana do sofrimento psíquico.

A paternidade também ocupa lugar central no livro, funcionando tanto como ponto de sustentação quanto como fonte de conflito e culpa. O divórcio e o fim da relação com Sibila, mãe de seus filhos, marcam o período mais profundo da crise narrada. “Escrevi sobre o divórcio porque foi quando mais fui mais a fundo no meu fundo do poço”, relata. “Ainda caio nos abismos, mas hoje consigo me levantar.” A escrita surge, nesse contexto, como gesto de catarse, capaz de transformar a experiência vivida em elaboração simbólica.

Influenciado por autores da literatura, da filosofia e da psicologia, o autor assume uma escrita intensa e detalhista, construída a partir da angústia e da contradição. “Escrevo o que penso”, afirma. “Faço dor virar paixão, a paixão virar virtude.” Para o autor, a literatura nasce daquilo que é vivido de forma extrema, sem idealização. “As pessoas gostam de arte feita com sangue e com alma”, diz.

Sobre o autor: Rodrigo H. Maran é escritor e poeta curitibano. Atua na escrita de poesia e prosa de caráter confessional, com interesse em temas como subjetividade, dependência química, sofrimento psíquico, paternidade e espiritualidade. Desenvolve também atividades profissionais fora do campo literário, ligadas ao trabalho no meio rural.

Livro sobre Millôr Fernandes é destaque no jornal O Globo

Livro "De Milton a Millôr", de Andréa Queiroz, é destaque na Coluna de Ancelmo Gois.

Veículo: O Globo | Data: 06/12/2025 | Cliente: Editora Appris

O humor como forma de pensamento crítico e resistência política é o eixo central do livro “De Milton a Millôr: a trajetória de um jornalista ipanemense, pasquiniano e sem censura”, da historiadora Andréa Queiroz, lançado pela Editora Appris. A obra reconstrói o percurso de Milton Viola Fernandes, do subúrbio carioca, até se tornar Millôr Fernandes, um dos intelectuais mais influentes da imprensa e da cultura brasileira.

Resultado de anos de pesquisa acadêmica, o livro analisa como Millôr construiu uma escrita marcada pela ironia, pela experimentação linguística e pelo humor como método crítico. De O Cruzeiro a Pif Paf, da Veja ao Pasquim, Andréa evidencia o papel central do autor na imprensa alternativa e na resistência cultural durante a ditadura civil-militar.

O lançamento e o conteúdo da obra ganharam destaque na imprensa, com nota publicada em O Globo, na coluna de Ancelmo Gois, que ressaltou a atualidade do pensamento de Millôr e a importância de levar essa pesquisa para além do meio acadêmico, ampliando o debate sobre memória, censura e liberdade de expressão no Brasil.

Confira a matéria completa no link a seguir: https://oglobo.globo.com/blogs/ancelmo-gois/post/2025/12/millor-que-definiu-o-brasil-como-o-pais-do-oximoro-ganha-biografia-que-vai-alem-da-figura-publica.ghtml

De Milton a Millôr, o humorista sem censura

Andréa Cristina com o livro de Milton a Millôr - (Crédito: Michele Bruno)
 Livro da historiadora Andréa Queiroz revela a personalidade do desenhista que virou um dos mais importantes intelectuais do país. Lançamento a 6 de dezembro, no Empório e Cafezin Trem das Gerais, em Vila Isabel
Influente na imprensa e na cultura do país, o jornalista, escritor e desenhista Millôr Fernandes é tema do livro “De Milton a Millôr: a trajetória de um jornalista ipanemense, pasquiniano e sem censura”, da historiadora Andréa Queiroz. O lançamento pela editora Appris será no dia 6 de dezembro, às 14h, no Empório e Cafezin Trem das Gerais, em Vila Isabel.
Resultado de uma pesquisa que atravessa seu doutorado e anos de investigação, a obra reconstrói a infância de Milton Viola Fernandes no subúrbio e acompanha sua transformação em Millôr Fernandes, figura central no jornalismo brasileiro. “O que me interessou desde o início foi entender como um menino órfão do Méier se tornou um dos intelectuais mais importantes do país sem passar pela universidade e sem se curvar aos mecanismos formais de legitimação”, afirma Andréa.
Capa do livro "De Milton a Millôr", de Andréa Queiroz, publicado pela Editora Appris. (Créditos: Divulgação)

Capa do livro “De Milton a Millôr”, de Andréa Queiroz, publicado pela Editora Appris. (Créditos: Divulgação)

A ideia de transformar a tese em livro surgiu depois que um dos achados da pesquisa de Andréa foi citado pela imprensa, destacando a atualidade de um texto de Millôr publicado há 56 anos na Revista Pif Paf. “Percebi que havia uma urgência em tirar esse estudo do campo acadêmico e compartilhar com um público mais amplo. Millôr segue atual e necessário”, explica.
Com abordagem histórica e analítica, o livro percorre os diferentes períodos da atuação de Millôr, de O Cruzeiro à Pif Paf, da Veja ao Pasquim, onde ele se tornou símbolo da imprensa alternativa e da resistência cultural à ditadura. “Millôr transforma humor em método crítico. Ele não usa a ironia como mero recurso literário, mas como estratégia política e ferramenta de sobrevivência diante da censura e como forma de expandir as possibilidades de leitura do mundo”, destaca a autora.
Ao longo da obra, Andréa evidencia como Millôr construiu uma escrita marcada pela experimentação. Neologismos, trocadilhos, versos, releituras gráficas e rupturas discursivas formam o repertório que ele utilizava tanto para driblar interditos quanto para provocar o leitor. “Ele entendia as palavras como um lugar de batalha. Para Millôr, brincar com a língua era também questionar autoridades, desmontar discursos prontos e confrontar formas sutis de censura”, analisa.
Andréa Queiroz é doutorada em História pela UFRJ - Créditos Juliano Camargo

Andréa Queiroz é doutorada em História pela UFRJ – Créditos Juliano Camargo

Além da dimensão estética, o livro ilumina a importância de Millôr como observador do Rio de Janeiro, especialmente de Ipanema, e das transformações da cidade na segunda metade do século XX. Suas crônicas, em especial no Pasquim, construíram uma representação da Zona Sul como metáfora do país. “Entender Millôr é também entender o Brasil, suas contradições, a vida urbana, a política e os modos de subjetivação produzidos pelo período da ditadura”, afirma Andréa.
A obra também revela aspectos pouco conhecidos de sua trajetória, como a formação autodidata e o aprendizado do jornalismo “de dentro”, começando como contínuo. “É curioso como a figura do ‘Millôr ipanemense’ muitas vezes apaga o menino suburbano. Mostrar esse percurso foi um dos meus compromissos neste trabalho”, ressalta a historiadora.
Sobre a autora: Andréa Cristina de Barros Queiroz é historiadora da UFRJ (desde 2009) e diretora da Divisão de Memória Institucional do Sistema de Bibliotecas e Informação da universidade. Pós-doutora e doutora em História Social pelo PPGHIS/UFRJ, mestre pela UFF e graduada em História pela UERJ, atua em pesquisas sobre ditadura civil-militar, censura, imprensa alternativa, memória institucional e patrimônio. Integra a Comissão da Memória e Verdade da UFRJ (desde 2018), é pesquisadora associada a diversos laboratórios da UFRJ e UERJ e uma das coordenadoras do podcast História Presente (LPPE/UERJ), premiado em 2025 pelo Memórias Reveladas do Arquivo Nacional.