Arquivos: sociedade
“O filho é (apenas) da mãe?”
Pesquisadores analisam em livro como o discurso jurídico naturaliza a responsabilidade feminina pelos filhos
A sobrecarga materna não é destino biológico, é construção social. No livro “O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga materna”, os pesquisadores Laura Elisa Nascimento Vieira e Cláudio Márcio do Carmo mostram como a desigualdade de gênero se cristaliza nas relações parentais, inclusive na própria legislação brasileira.
A obra conecta história, ciências sociais e reflete como o discurso jurídico contribui para manter desigualdades nas relações parentais no Brasil. “Ao conceder à mãe determinados ‘benefícios’ em função dos filhos, a legislação reconhece que tal obrigação é materna e não parental”, diz Laura, mestre em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ),
O livro utiliza como objeto de análise a Lei 14.457/22 do Programa Emprega + Mulheres. O que mais chamou atenção dos autores é a contradição de que a lei é voltada à empregabilidade de pessoas que têm filhos, mas, na verdade, visa normatizar, pelo fato de ser mãe, a mulher precisar de maior flexibilidade nas condições de trabalho estabelecidas pela esfera pública. “Se a lei promove, na maior parte do tempo, melhores condições a quem tem filhos, por qual motivo ela se destina à ‘empregabilidade de mulheres’ e não de pais e mães ou outros responsáveis?”, questiona Laura.
Para os autores há uma dupla interpretação da situação, sendo uma que reconhece a importância de leis que promovam e garantam o direito à empregabilidade das mulheres, com uma divisão equacionada do trabalho e da responsabilidade com a casa e os filhos. “E outra que escamoteia, a partir da própria lei, a manutenção da dupla jornada de trabalho e sobrecarga. E a consequente aceitação de se pensarem os cuidados com os filhos como exclusivamente ou na maioria das vezes de responsabilidade das mulheres”, acrescenta Cláudio, que é professor de Linguística e Língua Portuguesa da UFSJ.
Ao longo do livro, os autores analisam não apenas o texto da lei, mas também as manchetes e notícias que repercutiram sua promulgação. O resultado revela um dado simbólico: a ausência de estranhamento público diante da associação direta entre mulher e maternidade. “A forma como nomeamos as coisas importa. Maternidade não pode ser metonímia de parentalidade. Utilizar um termo em substituição ao outro não faz as pessoas assumirem responsabilidades que culturalmente não lhes são designadas”, afirma Laura.
Entre exemplos do cotidiano, o livro cita situações aparentemente banais, mas reveladoras — como fraldários instalados apenas em banheiros femininos ou símbolos gráficos que associam o cuidado exclusivamente à figura da mulher. “Cito também os elogios desproporcionais que alguns pais recebem por serem participativos nas rotinas dos seus filhos, como se isso não fosse da sua responsabilidade”, diz Cláudio. Para ele, esses sinais reforçam culturalmente a centralidade materna e ajudam a sustentar a chamada “dupla jornada”.
Mais do que um livro acadêmico, a obra se apresenta como um convite ao debate público — dirigido a mães, pais, profissionais do direito e formuladores de políticas públicas. “A transformação social só acontece quando o incômodo é nomeado. Para mudar a cultura, precisamos discutir a desigualdade nas relações parentais e repartir, de fato, a responsabilidade pelas próximas gerações”, conclui Laura.
Sobre os autores:
Laura Elisa Nascimento Vieira é mestre em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), graduada em secretariado trilíngue pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), pesquisadora na área de linguagem, discurso e relações de poder.
Cláudio Márcio do Carmo é professor titular de Linguística e Língua Portuguesa da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), mestre e doutor em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP), além de pesquisador do CNPq.
Valeska Zanello concede entrevista ao Correio Braziliense sobre novo lançamento
Veículo: Correio Braziliense| Data: 06/11/2025 | Cliente: Editora Appris
Até que ponto nossas emoções são naturais e quanto delas é aprendido? Essa reflexão guia o novo livro da psicóloga Valeska Zanello, “Scripts Culturais, Gênero e Emoções”, o qual será composto de dois volumes. Em novembro, o Volume 1 (Problematizando ‘Gênero’)” chegou às livrarias pela Editora Appris.
Autora dos best-sellers “Saúde mental, Gênero e Dispositivos” e “A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações”, Valeska aprofunda em sua nova obra a discussão sobre como o gênero atravessa a construção das emoções, afetando diretamente nossa forma de sentir, reagir e nos relacionar.
O Correio Braziliense publicou uma ótima matéria sobre a nova obra de Valeska, que é professora de psicologia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora na área de saúde mental e gênero.
Clique no link a seguir e para conferir a entrevista: https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/ensino-superior/2025/11/7286174-valeska-zanello-lanca-novo-livro-sobre-genero.html
Obra sobre psicanalista Hélio Pellegrino vence Prêmio Jabuti Acadêmico
A psicanalista Larissa Leão de Castro está entre os vencedores da 2ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico, promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), na categoria Psicologia e Psicanálise. A conquista foi com a obra “Hélio Pellegrino: Por uma Psicanálise Política”, publicada pela Editora Appris. Com análise de documentos inéditos, a obra inova ao mostrar a relação entre clínica e autoritarismo, resgatando o legado de Pellegrino em defesa da democracia.
No livro, a autora propõe uma visão da psicanálise que ultrapassa os limites clínicos, destacando seu papel ativo na denúncia das injustiças sociais e na construção de um projeto coletivo de sociedade. A obra desvenda o arquivo inexplorado de Hélio Pellegrino (1924-1988), revelando manuscritos, cartas e ensaios psicanalíticos. E explora documentos da Fundação Casa de Rui Barbosa que expõem a luta do criador da primeira Clínica Social de Psicanálise do Brasil – um marco na democratização do acesso à saúde mental.
Larissa investiga o legado teórico, ético e político de Hélio Pellegrino, uma das figuras mais importantes da psicanálise brasileira no século XX e da quarta geração do freudismo internacional. Para ela, o livro resgata o valor de sua obra injustamente recalcada e ajuda a compreender por que Pellegrino continua sendo um dos pensadores mais atuais da psicanálise no país. “Sua síntese entre marxismo, teologia da libertação e psicanálise oferece respostas importantes à crise do capitalismo global e aos sintomas sociais resultantes de seu pacto perverso”, afirma. Patrono da Psicanálise Brasileira Socialmente Compromissada, por 36 anos silenciado, recobra agora o seu lugar nas manhãs de sol de cada um de nós.
A obra propõe reconstruir criticamente a trajetória intelectual de Pellegrino. E destaca a atualidade de seu pensamento, ainda não sistematizado na literatura científica, mostrando como sua abordagem psicanalítica incorpora um forte compromisso social e democrático.
Pellegrino é apresentado como referência fundamental de uma psicanálise engajada, que articula clínica, ética e política em defesa da humanidade, da democracia e da justiça social. Seu pensamento ganha destaque por colocar a transformação das estruturas sociais no centro da prática psicanalítica, revelando o potencial da psicanálise como instrumento de resistência frente às desigualdades e à lógica excludente do capitalismo global.
Sobre a autora: Psicanalista e psicóloga, doutora em psicologia clínica e cultura. Foi professora na área da psicologia social e psicanálise na Universidade Federal de Goiás – Regional Jataí (UFG-REJ). Pesquisa principalmente sobre subjetividade, cultura, psicanálise, educação, violência, fundamentos teóricos e projetos políticos de sociedade.
Sobre a editora: O Grupo Editorial Appris conta com cinco selos editoriais, das mais diversas áreas técnicas, científicas e literárias. Com 14 anos no setor e a experiência de seus editores, que atuam há mais de 35 anos no mercado editorial, a Appris possui um catálogo com mais de 12 mil obras publicadas e que continua a crescer com uma média de 70 lançamentos por mês.



